Christina Lima, do
Nós da Comunicação
O administrador Ayrton Sérgio Rochedo Ferreira lançou, no dia 16 de
março, no Rio de Janeiro, seu livro ‘Modelagem Organizacional por
Processos – Um sistema óbvio de gestão, um passo além da hierarquia’
(Editora Mauad). Sócio-diretor da Rochedo Ferreira & Consultores,
ele acumula 25 anos na área de recursos humanos.
Na
obra, o consultor e colunista do Nós da Comunicação
defende um ponto de vista que valoriza cadeias horizontais de
atendimento nas empresas, e não um trabalho produzido para ser
entregue ao gestor. “O trabalho não foi feito para ser ofertado à
hierarquia. Em outras palavras, ninguém é pago para trabalhar para
chefe”, afirma. Na entrevista a seguir, ele fala sobre outros pontos
ligados à gestão empresarial.
Nós da Comunicação – O que há de novo em sua área de
atuação? Quais as tendências em soluções para gestão empresarial?
Ayrton Ferreira – Minha área de atuação é de processos e
envolve capacitação de gestores e lideranças e modelos de gestão. Na
realidade, o que há de novo é o reconhecimento de algo que é óbvio,
mas custa a ser entendido: a questão do sentido da organização do
trabalho nas cadeias horizontais dos processos nas empresas. O
trabalho não foi feito para ser ofertado à hierarquia. Em outras
palavras, ninguém é pago para trabalhar para chefe. As pessoas
trabalham porque a empresa precisa atingir as partes interessadas,
os stakeholders. Para isso, é necessário que a empresa desenvolva
processos horizontais, que passem pelos postos de trabalho até o
produto final. Essa é a visão natural, sistêmica.
Nós da Comunicação – Por que a empresa se organiza
internamente de forma vertical se tem, por natureza, um
desenvolvimento horizontal?
Ayrton Ferreira – Essa organização funcional, vertical, da
estrutura cria uma contradição com o sentido horizontal dos
negócios. O que há de novo é reconhecer isso. A proposta é lógica, e
chega a ser óbvia, mas entre compreender e praticar há uma
distância. Pela dificuldade da prática, é preciso envolver, além de
processos, também a liderança. Esse gestor precisa orientar e
canalizar os esforços de sua equipe para a cadeia horizontal de
atendimento.
Essa
migração de culturas traz vantagens no comportamento social. Uma
delas é a motivação, que passa a ser mais bem expressada. Ela
acontece quando reconheço minha obra e percebo que posso
experimentar alguma realização ao entregar ao cliente, não apenas ao
chefe, um trabalho que o beneficie e crie um sentido de
comprometimento também.
Nós da Comunicação – E por que razão, na maioria das
empresas, isso não está acontecendo?
Ayrton Ferreira – Isso tem razões culturais muito claras.
Há mais de um século nossas empresas foram construídas segundo o
modelo hierárquico. É como se a hierarquia sempre perguntasse: ‘Para
quem trabalhas? Para quem manda ou para quem demanda?’. Na prática,
as pessoas foram condicionadas a trabalhar para quem manda, e não
para quem demanda. Nesse momento, falta um líder que estimule o
entendimento do sentido horizontal do trabalho.
Não
adianta criar nas empresas mecanismos de avaliação de desempenho, e
a análise ser feita somente pelo chefe imediato. Na realidade,
aquela equipe não pertence ao chefe, do ponto de vista do que ela
entrega. O desempenho de um time pertence aos clientes. Nesse
sentido, nossos arranjos organizacionais precisam ser revistos. Na
hora de recrutar alguém, por exemplo, muitas empresas fazem a
seleção apenas sob o critério do chefe imediato. Se quem está sendo
selecionado vai trabalhar dentro desse processo com várias
áreas-clientes, por que não envolvê-las nesse recrutamento? Trata-se
de mudar a cultura hierárquica para uma cultura de atendimento.
Nós da Comunicação – A comunicação tem algum papel a
representar nessa transformação?
Ayrton Ferreira – A comunicação tem muito a contribuir. Não
apenas por meio dos canais e das peças de campanhas, mas
principalmente na questão do significado da mensagem. Até que ponto
a palavra do gestor estimula de fato esse atendimento aos clientes
internos? É uma palavra que cria restrições ou utiliza um universo
vocabular em que pensa nos interesse apenas da equipe em si, como se
não tivesse um cliente para quem trabalhar? A comunicação pode,
ainda, com a tecnologia que dispõe, ajudar os líderes a fazer chegar
às equipes algo fundamental: um trabalho estrategicamente
intencionado. Todo trabalho em uma empresa tem de ter uma intenção
estratégica, além da operacional. Não é mais possível pensar em
gastar um centavo de uma organização sem uma intenção estratégica.
Às vezes, tendemos a pensar que estratégia é algo longe do dia a
dia, guardada em um livro grosso na prateleira da diretoria. Ela tem
de ser vivida cotidianamente. De nada adianta se não for colocada em
prática. É limitar demais as possibilidades e a contribuição dos
comunicadores apenas às peças de campanhas.
Nós da Comunicação – Como você vê a gestão das mídias
sociais na web dentro das empresas?
Ayrton Ferreira – As mídias sociais têm a grande vantagem
de permitir que as pessoas saibam mais sobre todos ao mesmo tempo. A
questão que se abre nesse cenário, ao granular de maneira incrível o
contato e o relacionamento com as pessoas, é saber o que fazer com
essa possibilidade. As redes sociais digitais nas empresas podem
contribuir se forem direcionadas para intenções altruístas, não
apenas idealistas, mas no sentido de pensar a sociedade e a empresa.
Nós da Comunicação – Fale mais de seu livro ‘Modelagem
organizacional por processos – Um sistema óbvio de gestão, um passo
além da hierarquia’?
Ayrton Ferreira – O livro propõe justamente um trabalho que
se organiza e se desenvolve na horizontal para cadeias horizontais
de atendimento, e não para ofertar à hierarquia, que deve continuar
existindo, pois é também ordenadora, concentra e decide, mas o
gestor passa a ter um novo papel, que é o de fazer os times
trabalharem para as cadeias horizontais. O ‘óbvio’ do subtítulo é
porque se todo mundo trabalhar para o chefe, o cliente não é
atendido. Uma frase que destaco no livro é: quando um cliente final,
lá fora, reclama é porque, antes dele, nenhum cliente interno fez o
favor de reclamar. Nessa cadeia de clientes internos, se essa
comunicação não for de qualidade, o cliente vai, certamente,
reclamar. E o ‘passo além da hierarquia’ é porque propõe esse novo
papel para os líderes por meio de metodologias e ferramentas que
mapeiem processos nas empresas, criem serviços prestados, definam
indicadores de desempenho das entregas, enfim, organizem o modelo de
trabalho na horizontal.
Mas
um livro não acaba, ele é interrompido pelo autor quando acha que
chegou a hora de publicá-lo. A questão, porém, continua, e gostaria
que as pessoas que lessem o livro pudessem contribuir para a
discussão. Tenho a convicção de que é uma nova forma de ver a
organização do trabalho, mas, como já disse, é cultura, é óbvia, mas
precisamos começar a praticá-la.
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