AS TRÊS FACES DA PANDEMIA

 

Ayrton Sérgio Rochedo Ferreira

 

 

Da mesma forma como ela nos chegou sem uma razão para ter vindo, a pandemia se instalou entre nós e nos faz conviver com suas três faces distintas – a dor, a consolação e a superação - dentro de uma mesma tragédia.

 

A face da dor.

A sua natureza pan nos faz viver instantaneamente a dor do mundo. Carregamos um sentimento de aldeia global. Todo o mundo é refém de um inimigo invisível. Não há saída garantida para ninguém.

   

Sentimos falta de uma lógica para sofrer a sua ameaça.

Não nos cabe dizer “o inimigo está se aproximando” porque nem sabemos onde ele está - e ele pode estar em qualquer lugar. Na frente da batalha, com incrível dedicação e heroísmo, combatemos o mal que ele já nos causou, mas pouco podemos fazer para evitar novos males. As vítimas são aleatórias. Ao meu lado, inesperadamente, pode tombar alguém sem aviso. Não sei se os sintomas do meu vizinho são a doença ao meu lado, nem se os meus próprios sintomas podem me levar à intubação. Já não espirro sem culpa.

A face da consolação.

 

Mas há uma outra face dessa realidade que não pode escapar à uma observação mais cuidadosa: no plano individual a crise está permitindo a fruição de ganhos secundários.

 

Enquanto nosso eu público sofre com a dimensão social da pandemia, nosso eu privado se permite experimentar estranhas sensações de prazeres adormecidos.

 

Podemos ficar mais em casa, conviver mais em família e usar um tempo pessoal mais nosso e menos profanado pelos outros.

 

Alguns estão descobrindo que trabalhar menos e ganhar um pouco menos acaba fechando a conta se abrirmos mão de coisas não essenciais.

 

Não são poucos os que estão se reencontrando com velhos hobbies e se permitindo resolver demandas há muito frustradas pelos compromissos dos tempos normais.

 

Muitos estão lendo mais, outros estão fazendo cursos online para atender a interesses que haviam sido sufocados pela pesada rotina do dia a dia.

 

Quase todos, enfim, estão fruindo os pequenos prazeres dos ganhos secundários, já que o status quo foi devastado pela pandemia.

 

O que experimentamos então, no acanhado espaço de manobra que nos sobrou, é uma saudosa sensação de liberdade pessoal, de escolha e de autonomia para pequenas e prazerosas ações há muito recalcadas pela implacável esteira transportadora do antigo normal.

 

Os ganhos secundários funcionam como o nosso bazar das consolações. Mais que um alívio, eles nos fornecem uma importante compensação existencial nesse momento.

 

A face da superação.

 

Não será o fim da pandemia que nos trará de volta o antigo normal; vamos ter que construir um novo.

 

Será que os pequenos ganhos compensatórios que estamos descobrindo no bazar das consolações não poderão se juntar à esta construção?  Será que o novo normal não poderá sair temperado pelos pequenos apetites que vieram à tona nesta fase em que casco rachou?

 

A face da consolação começa a influenciar. Quem sabe isso não trará mais personalidade à nova obra?

 

No quinto mês de pandemia mundial, já cabe pensar em superar esta fase de perplexidade e rever algumas questões antigas que podem nos ajudar no desenho do novo normal.

 

  • Por que decretaram que o prazer só se encontra no lazer? (Sextou! Thanks God is Friday)

 

  • Porque o trabalho não pôde ser mais prazeroso?

 

  • Por que foi necessário trabalhar tanto?

 

  • Por que em certos contextos era constrangedor sair do trabalho no horário?

 

  • Por que ficávamos constrangidos se um vizinho nos encontrasse de bermuda, numa segunda feira, às três da tarde, no elevador?

 

  • Por que nossa casa não nos oferecia mais momentos de prazer e lazer?

 

  • Por que gastávamos a maior parte do nosso tempo de lazer na rua?

 

  • Por que fugíamos para entretenimentos em espaço público sempre que era necessário um esforço para nos entender com alguém no espaço privado? 

 

Estamos num momento privilegiado para refletir porque deixamos escapar do nosso cotidiano tantas expressões autênticas de nossa felicidade e do nosso ativo afetivo; descobrir em nome de que as sufocamos; concluir, olhando com honestidade os pratos da nossa balança existencial, o que ganhamos e o que perdemos com isso.

 

É hora de aproveitar todos os fóruns e espaços que estão se abrindo para refletir sobre a qualidade da nossa existência.

 

Para isso será necessário garantir no novo normal um espaço respeitável para o eu privado curtir o seu bazar de realizações.

 

Rio, 02 de agosto de 2020

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